* Publicado no Olheiros.net em 19/01/2010
Contratado pelo Corinthians, Roberto Carlos estreou na seleção brasileira aos 19 anos
Muito criticado na seleção em alguns momentos, mas sempre endeusado nos clubes em que passa. É assim que pode ser considerado o lateral-esquerdo Roberto Carlos, apesar dos 15 anos defendendo a seleção canarinho com grande maestria. Com todo o seu sucesso em campo, poucos sabem das enormes dificuldades que o garoto humilde de Garça/SP passou.

Roberto Carlos da Silva nasceu em Garça/SP no dia 10 de abril de 1973 e, embora tivesse nome de ídolo, jamais imaginou que pudesse se transformar em um dos mais respeitados laterais esquerdos do mundo. Não só conseguiu tal feito, como é desejado por grande parte das torcidas e dirigentes de times brasileiros.
Da ponta para a lateral
Dono de um temperamento forte, sem muitas papas na língua, Roberto Carlos não venceu apenas as dificuldades da vida fora de campo, mas também dentro dele. A primeira foi adaptar sua posição – desde criança, Roberto gostava mesmo era de atuar na ponta ou meia-esquerda. A segunda foi conciliar o esporte com o trabalho em uma tecelagem, com apenas 14 anos e já nos juvenis do União São João de Araras.
Em quatro anos de União, Roberto Carlos conseguiu não apenas visibilidade pessoal. Grande parte do sucesso que o time de Araras obteve na década de 90, culminando inclusive com título de Série B do Brasileirão e participações honrosas na Série A, veio através da visibilidade que Roberto trouxe ao clube.
Com apenas 16 anos, o jogador se tornou titular absoluto do time e em 1990 chegou à seleção brasileira sub-20, comandada na época por Ernesto Paulo. Um feito inédito para o clube interiorano, que até hoje nunca mais cedeu nenhum jogador pra a seleção nacional.
Em 1991, Roberto Carlos fez parte do time que perdeu a final para Portugal no Mundial Sub-20, nos pênaltis. No ano seguinte, em seu primeiro Pré-Olímpico, o Brasil não passou da primeira fase e ficou de fora das Olimpíadas de 1992 após um empate contra a Venezuela. Eram as primeiras decepções dele na seleção brasileira, com a qual viveria suas maiores alegrias e tristezas no futebol.
A estreia pela seleção principal aconteceu pouco depois do Pré-Olímpico, em 26 de fevereiro de 1992. Um dos poucos a se salvar do fracasso retumbante do time de Ernesto Paulo, ele foi chamado por Carlos Alberto Parreira para um amistoso contra os Estados Unidos, em Fortaleza. O Brasil venceu por 3 a 0, com dois gols de Raí e Antônio Carlos, e começava ali uma era, um reinado de 15 anos na lateral esquerda que, durante esse período, raramente foi ameaçado.
Passagem meteórica pelo Galo e sucesso total no Palmeiras
Poucos sabem, mas o torcedor do Atlético/MG teve o prazer de ver Roberto Carlos com a camisa de seu clube. Em 1992, antes de ser negociado com o Palmeiras, o lateral promessa do futebol paulista atuou por três vezes pelo Galo, em uma série de amistosos na Espanha. No ano seguinte, foi vendido por expressivos US$ 500 mil ao Palmeiras.
No Palmeiras, o início de sua consagração no futebol nacional. Pelo clube alviverde, vieram convocações para o pré-olímpico de 92, bicampeonato paulista (93/94), bicampeonato brasileiro (93/94) e um torneio Rio-São Paulo (93). Além disso, foi considerado o melhor lateral-esquerdo do Brasileirão em 93 e 94, tornando-se o principal candidato a substituir o até então titularíssimo da Seleção, Branco, que estava próximo de encerrar seu ciclo.
Depois de tudo isso, o caminho pra a Europa era só questão de tempo. Em 1995, a Internazionale de Milão fez uma proposta de US$ 7 milhões, quase 15 vezes mais que o valor pago pelo Palmeiras junto ao União São João três anos antes.
Paralelamente, Roberto Carlos começava a se preparar para viver seus dias de glórias na Seleção. Titular incontestável a partir de 1995, o jogador viu de perto a geração vencedora que conquistou quase tudo que disputou, mas precisou amadurecer a custa de várias derrotas que sangraram o coração do país inteiro e puseram em xeque o potencial de vários nomes hoje consagrados.
Primeiros anos de Europa: bem nos clubes, mal na seleção
Na chegada à Europa, Roberto Carlos teve um início avassalador. Em apenas sete meses de Inter de Milão, conseguiu ser destaque no Calcio e de quebra chamou a atenção do poderoso Real Madrid, comandado pelo vitorioso Fabio Capello, que estava formando um verdadeiro time de galácticos para responder à altura os investimentos feitos pelo rival Barcelona.
Com uma proposta irrecusável, o lateral foi negociado pela Internazionale e desembarcou em Madrid com pompa de estrela. Logo de cara, caiu nas graças da torcida e virou dono absoluto da posição, consolidando-se também na seleção brasileira. Em dez anos no clube merengue, ele sempre foi o dono absoluto da posição e conquistou quatro títulos espanhóis, além de três Ligas dos Campeões.
Porém, a sina antiga de alguns jogadores não conseguirem render na seleção o mesmo que nos clubes pegou Roberto Carlos. Jogando bem abaixo do que apresentava no Real, o lateral ainda teve que amargar duas das maiores decepções na seleção: o bronze em Atlanta e o vice-campeonato mundial em 98 de forma melancólica. E com dois agravantes: na semifinal de 96, o jogador fez um gol contra na derrota por 4 a 3 para a Nigéria, e em 1998 foi considerado culpado no primeiro gol francês por tentar executar uma bicicleta na linha de fundo, deixando a bola ir para escanteio. Na cobrança, Zidane abriu o placar para os Bleus.
De olho na Copa 2010 ao lado de Ronaldo
Apresentado pelo Corinthians no início do ano, frustrando mais uma vez o sonho do seu pai de vê-lo atuando pelo time de coração Santos, Roberto Carlos surpreendeu a todos com a meta de participar de mais uma Copa do Mundo. Com quase 37 anos, o jogador justifica a missão citando a dificuldade que Dunga teve para conseguir um lateral-esquerdo que o substituísse.
O lateral vai além: quer ir para a Copa e levar na bagagem o “fenômeno” Ronaldo, com o qual mantém amizade desde os tempos de Real Madrid. Com todo o potencial que já demonstrou, não será novidade se ele atingir seu alvo e “pintar” na África do Sul em junho.
Ficha técnica
Nome completo: Roberto Carlos da Silva
Data de nascimento: 10/04/1973
Local de nascimento: Garça/SP
Clubes que defendeu: União São João/SP, Atlético/MG, Palmeiras, Internazionale/ITA, Real Madrid/ESP, Fenerbahçe/TUR e Corinthians
Seleções de base que defendeu: Brasil Sub-23 e Sub-20